Cidades

Um passo à frente, dois atrás de um candidato ao fracasso

É possível pensar que os serviços de ônibus urbanos tenham seus dias contados? Num momento em que vivenciamos um elevado nível de críticas ao modal, com a insatisfação
27 de março de 2019

É possível pensar que os serviços de ônibus urbanos tenham seus dias contados? Num momento em que vivenciamos um elevado nível de críticas ao modal, com a insatisfação dos usuários, a falta de qualidade oferecida pelas prestadoras do serviço, os custos cada vez mais crescentes e uma competição acirrada com outras modalidades de transporte no cenário dos deslocamentos nas cidades, a pergunta nos permite refletir sobre a luz do alerta ligada em relação a todos os problemas que o segmento está passando e dá o tom para que soluções sejam apresentadas como forma de salvar esse tradicional meio de leva e traz de pessoas que está inserido na mobilidade mundial como, provavelmente, o mais democrático e flexível de todos.

O ônibus não é pop, não é tech, mas é tudo para que milhões de pessoas possam se deslocar diariamente nos ambientes urbanos. Porém, esse tudo não está sendo suficiente para que o modal mantenha sua representatividade perante a mobilidade coletiva. São vários os aspectos negativos que acompanham o cotidiano dos serviços, sendo a falta de evolução do conceito uma das barreiras que contribuem com uma perspectiva nada positiva para o seu futuro.

Vejamos. Os sistemas de ônibus urbanos são regulados por gestões públicas municipais, com um longo histórico de mandos e desmandos por parte de prefeitos que não enxergam no veículo uma maneira de promover o desenvolvimento sustentável de uma cidade. A maioria das administrações públicas do Brasil vê esse tipo de transporte apenas com a simplicidade de se disponibilizar um mecanismo para que as pessoas possam ir do ponto A ao B. Isso não é mais possível, pois o mundo se transformou e as necessidades dos cidadãos em se deslocar criaram novos hábitos nas relações entre as tarefas cotidianas e as viagens urbanas.

Por muitos anos, o segmento dormiu sobre os louros, colhendo os frutos de uma calmaria proporcionada pela falta de concorrência. Não se viu iniciativa por parte de gestores e operadores em provocar um avanço nos serviços. Tudo parecia que a roleta continuaria girando e que o passageiro seria fiel mesmo sem uma contrapartida interessante que lhe desse qualidade ou rapidez em suas idas e vindas. Ledo engano. O que mais se vê hoje são usuários do transporte fugindo pela porta de desembarque e não voltando mais. A competitividade bateu e a operação adormecida recebeu um beijo que não foi do príncipe, mas sim dos ávidos concorrentes que encaram nas oportunidades do gap deixado pelos ônibus a sua melhor forma de negócios.

E nessa linha de fatores que corroboram com a situação pra lá de negativa, destaque para a evasão de receitas, a insegurança jurídica nos contratos de operação, carência de infraestrutura adequada para que os veículos tenham desempenho, os custos operacionais, desequilíbrio financeiro causado pela tarifa e gratuidades, a falta de transparência em muitos casos na relação entre operadores e poder público, a inexistência de programas de incentivo ao transporte, competição com os sistemas de aplicativos e a incapacidade do Estado em gerir os serviços. É uma lista bem considerável e desafiadora frente a outras questões que ainda possam surgir.

Forte dependência dos humores das administrações municipais

Carente de um processo que lhe proporcione um salto de evolução para ser um grande articulador na mobilidade urbana, o ônibus quando conquista benefícios para a sua operação, podendo assim transmitir ganhos para quem o utiliza e também ao ambiente, logo sofre algum revés que o faça voltar para a estaca zero nos avanços (vide alguns sistemas de BRT pelo Brasil). Isso é muito comum em virtude dos humores das administrações municipais com certos apreços em algumas gestões e um olhar nada positivo em outras. Um passo à frente, dois atrás. 

Há uma necessidade urgente que o modal ônibus urbano se reinvente para poder ser competitivo em meio a outras opções de deslocamentos que aí estão. Não é mais possível olhar o veículo preso aos frequentes congestionamentos nas médias e grandes cidades brasileiras. Isso faz com que sua ineficiência contribua com o não desenvolvimento urbano. O ônibus pode ser tech, pop e tudo, mas a necessidade por investimentos em sua operação, com o uso da tecnologia de gestão, informação e comunicação, da prioridade operacional e de veículos modernos, é fundamental para que ele alcance regularidade, seja confiável e rentável. É dever de o Estado promover tais condições, afinal, os serviços são públicos, sendo necessário exigir uma melhora significativa. Sobre a pergunta feita lá no começo deste texto, é impossível afirmar que tal aspecto possa ocorrer, mas é bom que todos os envolvidos com esse segmento fiquem espertos sobre o futuro do modal, quanto ao seu sucesso (competitividade) ou se o fracasso moldará sua operação.





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