Variedades

Os novos desafios da advocacia

Informatização muda rotina e acaba com funções, mas cria novas perspectivas para os advogados
19 de agosto de 2019 às 10:01
Foto: Luiz Erbes

Os avanços tecnológicos que atingem o mercado de trabalho também estão mudando a rotina dos advogados - e criando novos desafios para quem lida com o Direito. Algumas funções são ou vão virar coisa do passado, como ir ao Fórum para falar com o juiz, monitorar pessoalmente processos e fazer pesquisa de jurisprudência, por conta da informatização de processos.

As mudanças exigirão adaptações de escritórios e advogados e levarão o profissional a desenvolver novas posturas e novas capacidades. "A nossa profissão não está acabando, está mudando. Temos que nos preparar para essa advocacia diferente", afirmou Bráulio Pinto, advogado especializado na área família, durante a palestra "O Direito do futuro: o que esperar da advocacia", quarta-feira à noite, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção Caxias do Sul. "O papel do advogado no futuro é menos operacional e mais intelectual", disse Fabio Vanin, coordenador do curso de Direito do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) e um dos palestrantes.

As inovações já estão em curso. "Há uma informatização da rotina jurídica, e isso é um caminho sem volta. Algumas atividades deixarão de existir, como ir ao Fórum, ler notas, peticionar, pesquisar jurisprudência", destacou Vanin. As mudanças, segundo ele, acabarão com algumas funções dentro de escritórios, principalmente as mais burocráticas, em que a inteligência artificial se mostra mais eficiente que o homem – e muito mais rápida. Não é algo necessariamente ruim, na visão do professor universitário. "Isso vem para melhorar a vida do advogado e vai gerar mais resultados para o escritório".

Há 36 anos na profissão, Bráulio Pinto fez comparações do tempo em que começou a advogar, nos anos 1980, e hoje, em que a advocacia vive um processo de informatização. As idas ao Fórum, naturais até pouco tempo atrás, vão deixar de existir. Hoje, com os processos eletrônicos, tudo está na palma da mão do advogado, a um clique de distância. "Conheço advogado que atua pelo celular, de qualquer lugar em que esteja", contou.

Neste novo contexto, falar com o juiz ficou mais difícil. "Tem juiz de primeiro grau que não recebe mais advogado. Hoje é mais fácil falar com ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) do que com juiz de primeiro grau", revelou. Essa informatização também mudou a geografia dos processos. Como tudo é via internet, há processos que mudam de cidade – caso de uma ação impetrada em Caxias do Sul e que está com um juiz de Erechim, citada por um advogado que assistiu à palestra. A vantagem é que o advogado não fica restrito a uma cidade de atuação.

Inteligência artificial fará análise prévia

Neste contexto de informatização, o VICTOR, a ferramenta de inteligência artificial implantada pelo STF para agilizar processos, é visto como um novo desafio por Bráulio Pinto. "O que ele faz? Ele examina previamente todos os processos e decide se vão ser admitidos ou não pelo tribunal. Como a gente fala com o VICTOR? Como a gente convence o VICTOR de que o nosso processo precisa ser analisado por um ministro? É algo que me preocupa".

Para Bráulio Pinto, o advogado terá de aprender a lidar com inteligência artificial, como o VICTOR, e ter conhecimento jurídico para se manter ativo na profissão.  “Qual é o pulo do gato? Se a gente tiver conhecimento jurídico e souber usar a tecnologia, como usar o VICTOR e somar a isso a cultura jurídica, então, haverá futuro. Se pararmos no tempo, não tempos futuro”.

Neste contexto, segundo ele, dominar a tecnologia será essencial. “Ainda sou um estrangeiro em relação a estas tecnologias, mas estou me cercando de nativos”, disse o advogado. “A informatização não vai mudar, o nosso futuro depende do que vamos fazer com a informatização.”

Atuação intelectual com empreendedorismo

As mudanças provocadas pela tecnologia não ficam apenas na perspectiva operacional, vão abrir novas possibilidades de atuação. Segundo Fábio Vanin, há uma perspectiva de especialização muito maior, com o surgimento de novos campos de atuação, como direito urbanístico, biodiversidade, compliance (dever de estar em conformidade com atos, normas e leis), políticas de inclusão de gênero (LGBT) e minorias. A isso se somam as novas perspectivas em áreas tradicionais do Direito Civil e Penal.

Neste cenário, lidar com grandes quantidades de informações será vital. "As questões hoje têm várias perspectivas, e o conhecimento intelectual será um diferencial", afirma o coordenador do curso de Direito da FSG. "Hoje, o acesso à informação é mais barato e fácil. Há uma quantidade muito grande de informação, o que obriga o advogado a transformar isso em qualidade".

O novo contexto exigirá nova postura. "Entre as novas exigências para o advogado está a ser cada vez mais empreendedor, colocando sua marca", afirmou Vanin. Não é algo completamente novo, mas ganha nova dimensão em tempos de internet. Se no passado os escritórios se destacavam por ter uma biblioteca com inúmeras obras, hoje tudo está na internet. Amplos espaços físicos já não significam tanto.

Além disso, segundo Vanin, os advogados precisam aprender a trabalhar de forma mais colaborativa, em parceria, saber lidar com outras profissões e até falar de um jeito mais simples. Outra tarefa é se antecipar a situações. "O processo sempre, ou quase sempre, se dá em relação ao passado, mas o advogado precisa observar o que está acontecendo, quais os impactos de novas legislações ou jurisprudências, e levar isso para o cliente, para evitar que ele tenha problemas", afirmou.

Buscando soluções

Outro desafio novo para os advogados será o de encontrar soluções, e não esperar pelo juiz para resolver um caso. Com magistrados com pilhas de processos para julgar, não há mais como aguardar o trânsito em julgado. "Os conflitos entre as pessoas aumentaram consideravelmente, e isso só será resolvido pela atuação do advogado", afirmou Bráulio Pinto. "Temos que pensar na nossa atuação no futuro. Se esperarmos o trânsito em julgado, vamos morrer de fome. Temos que resolver os problemas dos litígios". Segundo ele, o advogado, uma vez ensinado a litigar, precisa se centrar em buscar acordos.





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