Cidades

DIA DA IMIGRAÇÃO: Brasil, destino de muitos

Deste o início do século XXI, o Brasil tornou-se destino de imigrantes, principalmente vindos de países africanos, e do Haiti. Isso se dá pelo fato dessas nações sofrerem cada vez mais com conflitos ou catástrofes em seus territórios. O país, no entanto,
25 de junho de 2019 às 13:05
Foto: Luiz Erbes, Divulgação

Senegalês luta por futuro melhor

 

Segundo dados da Polícia Federal, em 2015, aproximadamente 180 mil imigrantes entraram no Brasil. Em 2017, no Rio Grande do Sul, eram 50 mil imigrantes, sendo 8,5 mil haitianos e 4,2 mil senegaleses, segundo dados do Fórum de Mobilidade Humana. Dentre esses estava Abdoulat Ndiaye, 31, nascido em Khombole, a pouco mais de 90 km de Dakar, capital do Senegal, e no Brasil desde o final de 2010. “Na chegada, foi muito difícil, não conhecíamos nada. Pegamos um voo errado, fomos parar em Fortaleza”.

Billi, como é conhecido, foi um dos primeiros senegaleses a pisar no Brasil. “Peguei minha mala e vim tentar uma vida melhor. E vou fazer de tudo para que dê certo”, afirma. Tentou morar nos Estados Unidos, mas não conseguiu visto e descartou a possibilidade de ir para a Europa em razão da crise que o continente enfrentava.

O principal motivo para as pessoas deixarem a terra natal é a busca por empregos. “A gente cresce pensando que tem que viajar e emigrar. O Senegal não tem muita coisa, não tem emprego”. Billi lembra que quando chegou ouviu muitas coisas ruins. “Quando saímos da África, a primeira coisa em que pensamos é no trabalho. Por mais que chegue aqui com um diploma, vou atrás de trabalho e não de seguir a formação que tenho”. Muitas pessoas que vem da África trazem diplomas de universidades e que, em um contexto geral, não são valorizados. “Isso mudará. Logo, as empresas verão o quanto somos importantes e vão querer nos segurar”.

Ndiaye age com naturalidade com o preconceito que ele e seus “irmãos” sofrem e acredita que acredita que isso está mudando. O ponto que considera ruim é não receber o devido valor que merece. “Não importa o tempo que ficar aqui, posso ter uma vida digna, uma família brasileira, mas todos os dias as pessoas vão mostrar que não sou nativo”.

Seu primeiro emprego foi em Passo Fundo, onde trabalhou por três meses, e depois veio a Caxias do Sul. Atuou no comércio por quatro anos até montar a própria loja, na Avenida Júlio de Castilhos, em frente à Praça Dante Alighieri, e que se tornou ponto de encontro. “Aqui passam pessoas de todos os lugares. A maioria vem para que eu possa ajudar com os documentos. Minha loja é mais um ponto de encontro do que um trabalho mesmo”, brinca.

Por estar no Brasil há oito anos, Ndiaye conseguiu a cidadania. “É uma conquista e fico mais tranquilo em saber que posso ajudar nas decisões do país”. Ele não cogita voltar a morar no Senegal tão cedo. “Meu irmão, que reside nos Estados Unidos há 20 anos, voltou. Depois de seis meses retornou. Nós, que moramos fora, temos ideias diferentes de quem está lá”.

 

Daniel Herrera, o uruguaio caxiense

 

Com população menor que a do Rio Grande do Sul, o Uruguai mantém uma relação histórica com seus vizinhos Brasil e Argentina. A proximidade faz com que muitos uruguaios venham morar no Brasil, caso da família de Daniel Marcia Herrera. Ele nasceu em Montevidéu e mora no Brasil há mais de 40 anos dos seus 46 de vida. “Vim com três anos, não cheguei a ter muitas dificuldades, meus irmãos sim”, afirma, lembrando que o momento mais complicado foi com a língua. “Chegamos num dia e, no outro, foram à escola. Foi um baque, pois estavam alfabetizados no espanhol. Mas logo se adaptaram”.

Filho de pai espanhol e mãe francesa, Herrera revela o passado imigrante da família. “Meu pai foi para o Uruguai por causa do governo Franco. Naquela época, os homens tinham que servir ao exército e meu avô não queria isso para os filhos. Um dia antes de meu pai completar 18 anos, ele, meu avó e os dois irmãos embarcaram em um navio para o Uruguai”. A mãe de Daniel imigrou para o Uruguai por motivos semelhantes.

Os pais se conheceram em um evento para imigrantes vindos da Catalunha que acontecia em Montevidéu. Os três irmãos nasceram no Uruguai, mas os pais resolveram emigrar para o Brasil. “O uruguaio tem facilidade em emigrar para o Brasil. A língua é semelhante, a comida, a paisagem, o bioma, tudo isso ajuda nesse processo. A própria formação do gaúcho se dá em uma relação muito próxima com o Uruguai”, comenta.

A primeira parada da família foi em Porto Alegre. “Cheguei à Caxias do Sul com sete anos, toda a minha vida escolar foi feita aqui”, conta. Formado em administração de empresas, Herrera tem relação com a fotografia desde a infância e trabalha com isso hoje. De 1988 a 2008, atuou na empresa do irmão, a Vídeo Top, voltada à produção de vídeos.

O pontapé inicial foi em 1997, quando fotografou um casamento. “Uma família do interior comentou sobre o casamento do filho e pediu se topávamos fazer as fotos. Depois desse trabalho, vi que poderia ser uma área a ser explorada”.

Herrera já se considera parte da cidade. “Sou mais brasileiro que os brasileiros. Sou mais caxiense que os caxienses. Estou aqui por opção”, conta. Para ele, o que falta são políticas públicas para integração dos imigrantes. “Ao receber essas pessoas, o país precisa ter condições de abrigá-los”, defende.

Em suas visitas ao país natal, consegue matar a saudade de algumas coisas. “Gosto muito dos doces, da carne, do litoral...”. E comenta sobre a relação dos dois países no esporte. “No futebol, eu sou Uruguai, mas torço pelo Brasil. Na hora do jogo entre os dois fico dividido”.

 

O suíço que encontrou a felicidade

 

A presença de suíços por aqui é tão antiga quanto o país. Por volta de 1557, missionários vindos de Genebra desembarcaram no território. Nos anos de 1845 e 1846, era vendida a ideia aos suíços de que o Brasil seria uma terra de maravilhas, o que aumentou o fluxo migratório. Johann August Wilhelm Stillhart, 78, chegou em 1995. “Não me arrependo de vir para cá, ninguém me forçou, escolhi ser feliz aqui”. Nascido na pequena cidade de Tiefenkastel, nos Alpes Suíços, Willy teve uma vida muito agitada enquanto morou na Europa. Com seis anos, a família se mudou para Davos, cidade com pouco mais de 11 mil habitantes. Lá viveram até 1952, quando os pais se mudaram para Zurique.

Na maior cidade do país, fez todos os seus estudos, formando-se em Engenharia Mecânica. Willy vem de família que não esbanjava dinheiro, mas também não passava necessidades. “Meu pai era padeiro, sempre tivemos comida em casa”. O menino que se divertia na infância esquiando casou-se aos 25 anos e teve dois filhos.

Com 32 anos, Willy mudou para Neuchâtel, com pouco mais de 30 mil habitantes. Aos 55 anos, já divorciado, saiu da empresa em que trabalhou por mais de 15 anos e resolveu conhecer o Brasil. “Vim com uma mala e um pouco de dinheiro. Deixei tudo aos meus filhos”.

Chegou falando alemão, francês e inglês, mas não sabia nada de português. “Fui a um quiosque de jornais, comprei exemplar de O Globo e um dicionário, a cada dia eram 20 palavras novas que aprendia, nunca frequentei uma aula de português”, diz. Seu primeiro destino foi o Rio de Janeiro.

Em 2003, em uma feira de negócios em Bento Gonçalves, conheceu a segunda esposa. Depois de alguns anos, o casal veio para Caxias do Sul, onde construiu casa e tem dois filhos. “O Brasil é diferente do que imaginamos na Europa. Lá apresentam como futebol, praia, carnaval e mulatas. Mas aqui o povo é trabalhador”, opina Willy, que leciona inglês, francês e alemão.

Lembra que quando chegou ao Brasil, seu melhor amigo era um taxista que falava francês e o ajudou. “Aqui tem que escolher um time para torcer. Como gostava do Túlio Maravilha, pedi em que time ele jogava, naquela época estava no Corinthians, aí escolhi meu time”. Também é sócio do SER Caxias e frequenta o estádio com a filha.

Aos 78 anos, Willy não traça muitas metas para o longo prazo. Quer dar aulas até os 80 anos e seguir viajando, pelo menos uma vez por ano à Suíça e rever os parentes. “Gostaria de ver minha filha passando em uma universidade. Não sei se vou conseguir, ela está com 11 anos”.