Variedades

Casa do Artesão comemora duas décadas de atuação

Caxias possui três mil trabalhadores ativos, mas apenas 75 estão credenciados no espaço, que funciona como ponto de exposição, loja e qualificação
16 de julho de 2019 às 11:20
Foto: Thiago da Luz Machado

Com início modesto, mas que tomou corpo ao longo de 20 anos, a Casa do Artesão de Caxias do Sul, trabalha com foco no fortalecimento, na organização e fomentação do artesanato produzido na Serra Gaúcha. No princípio, eram nove artesãos, mas já houve épocas com 90. Atualmente, são 70 artesãos de 60 municípios. A maioria de Caxias (70%), seguido por Flores da Cunha, Gramado, Nova Petrópolis e São Marcos, que expõem seus produtos no espaço que, além da loja, é estruturado para ofertar cursos de capacitação. “É uma grande conquista termos este espaço, onde o artesão, que não tem onde divulgar e comercializar os seus produtos, pode expô-los. É uma grande porta de entrada para quem quer gerar renda com o seu trabalho manual. Um incentivo para novos e veteranos artesãos”, destaca a técnica de artesanato e coordenadora da Casa do Artesão, Rosane Devens.

Quando a Casa do Artesão iniciou suas atividades, no dia 10 de junho de 1999, o segmento era bem mais retraído, passando a evoluir desde então. Segundo ela, Caxias possui cerca de 5 mil artesãos e 3 mil estão ativos. As mulheres representam 70% do grupo, com idades bastante variadas: 25,5% têm entre 51 e 60 anos; 21,5%, 61 e 70 anos; e 18,6%, 41 e 50 anos. Na região, este número salta para 35 mil e, no Rio Grande do Sul, para mais de 90 mil. “Desconhecemos os motivos para termos cadastro reduzido na Casa. Divulgamos os serviços e as vantagens de ser associado. Emitimos a Carteira de Artesão, que viabiliza a isenção de ICMS para a circulação de produtos, emissão de notas fiscais e exportação como pessoa física, além da participação em exposições e feiras para venda dos produtos em qualquer parte do mundo”, destacou.

Para Rosane, o alto índice de desemprego e dificuldades de recolocação têm contribuído para que um número maior de pessoas busque no artesanato uma fonte de renda ou complemento. Muito deste público já desenvolvia algum produto, até como hobby, mas não tinha noção de que poderia gerar receita.

Em 2018, Caxias comercializou 22.984 peças artesanais, com emissão de notas fiscais no valor de R$ 500.714,32. Este ano, já foi contabilizada a venda de 4.974 peças e emitidas notas fiscais no valor de R$ 73.089,79. “Em 2018, a Casa faturou mais de R$ 100 mil. Este ano, até junho, o montante é de R$ 40 mil. São números que podem ser melhorados. Somos uma cidade turística, mas que precisa avançar em alguns quesitos. Recebemos muita gente de fora que nos procura para levar uma lembrança da Serra Gaúcha. Além do público local, amantes do trabalho artesanal”, ressaltou.

 

Cursos de capacitação

Para quem quer se capacitar, a Casa do Artesão oferece cursos de tear de pente e de prego, pintura em tecido, tricô, crochê e confecção de bichos e bonecos com tecido, ao custo de R$ 20 por aula. Conforme Rosane Devens, o número de aulas é determinado pela própria pessoa. “Sempre há técnicas a aprender e a aprimorar. Primamos por cinco requisitos essenciais: qualidade, técnica, estilo, beleza, acabamento e matéria-prima. Com predominância do trabalho manual, com uso de máquina desde que respeitada a essência do produto. Atendendo a estes requisitos, se pode tirar uma boa renda e, em alguns casos, até viver do artesanato. Dos 75 que frequentam a Casa, entre 5% e 10% vivem exclusivamente do artesanato” destacou.

A casa é uma iniciativa do Programa Gaúcho do Artesanato.  Mais informações pelo telefone (54) 3221-0770 ou presencialmente na Avenida Júlio de Castilhos, 2555, Bairro São Pelegrino. A loja funciona das 9h às 18h, de segunda a sexta-feira; no sábado, até 16h.

 

Com amor, carinho e exclusivo

Quem visita a Casa do Artesão, encontra produtos de crochê, palha de trigo e milho, madeira, pintura, biscuit, lã e reaproveitamento de matérias-prima, dentre outros itens, feitos por mãos habilidosas e cuidadosas. Com a herança repassada pela avó, e há 15 anos integrante da Casa do Artesão, Marlei Godoi domina a arte de trabalhar com fios, com enfoque especial para o crochê. “Por muito tempo, o artesanato foi a minha única fonte de renda. Hoje, a aposentadoria também ajuda, mas nunca deixarei de trabalhar. Desde que entrei para a Casa, o ânimo de trabalhar com o que gosto e sei fazer, só aumentou. Ter um lugar seguro e aconchegante para expormos os trabalhos faz uma diferença enorme para o fortalecimento da classe”, ressaltou.

Lourdes Paschol confecciona, há 25 anos, bonecas, santos e animais em feltro, além de outros produtos. Integrante da Casa há 19, disse que essa foi uma grande conquista para os trabalhadores, que, muitas vezes, não recebem a atenção que merecem. “É um segmento que precisa ser tratado com respeito. Precisamos ter medidas protetivas que assegurem direitos, que muitas vezes ficam perdidos diante dos produtos sem procedência vendidos nas ruas sem critério e sem fiscalização. Muitas famílias foram, são e continuarão sendo edificadas com o trabalho artesanal. Que, além da sua importância cultural, gera renda. Com um grande diferencial, é feito com amor. Toda e qualquer peça artesanal é única, exclusiva”, destacou. 

Nedi Vieira, com mais de 30 anos dedicados ao artesanato, há apenas um mês ingressou na Casa do Artesão. Viagens frequentes para divulgar seus produtos, com base em macramê e crochê, foram os motivos para a entrada tardia. “Este espaço nos proporciona segurança, que muitas vezes falta nas ruas”, cobrou.

 

Por um espaço mais próximo ao público

Com enfoque no crochê, Sônia Ramos tem, no artesanato, há mais de 40 anos, uma forte base econômica. “A Casa do Artesão é algo que veio para ficar e nos fortalecer. Mas Caxias tem muito que evoluir quando o assunto é o trabalho manual. Há muito tempo pedimos a construção de um espaço coberto para que possamos ficar mais próximos ao público, diariamente, sem a interferência dos produtos industrializados sem procedência. Mesmo assim, acredito que estamos avançando”, frisou.

Maria da Rosa, artesã a quase 60 anos, dos quais 15 expondo na Casa do Artesão, disse que a venda dos seus primeiros enxovais de crochê, macramê, tricô e outras técnicas, foi feita por colegas de trabalho. “No início era um hobby, que ajudava na renda. Sempre que alguém ia casar, ter filhos, ou simplesmente presentear, me fazia pedido. Tentei passar este ofício para as minhas duas filhas, mas nenhuma se interessou”, lamentou.