Cidades

Autismo requer amor e dedicação

Famosos são conhecidos quase sempre por suas atividades na televisão, eventos e grandes espetáculos. Da vida particular deles, o público gosta de saber da relação
02 de abril de 2019

Famosos são conhecidos quase sempre por suas atividades na televisão, eventos e grandes espetáculos. Da vida particular deles, o público gosta de saber da relação amorosa, da quantidade de filhos, o time que torcem e a posição política. Mas, em poucos casos, os famosos divulgam suas experiências ruins ou inesperadas.

Esse pensamento, no entanto, não se aplica ao ator e apresentador de televisão Marcos Mion. Pai de três filhos, descobriu que o filho Romeio, hoje com 13 anos, é autista. A condição atinge grande número de pessoas e tem, em 2 de abril, o Dia Mundial de Conscientização do Autismo.

Em seu Instagram, as publicações de Mion são frequentes e destacam uma relação de muito amor e, principalmente, pedindo compreensão e respeito ao filho. Em uma das postagens diz: “Dentro desse abraço é sua casa, meu filho! O lugar mais seguro desse mundo! Onde você pode ser exatamente como você é, pois você é a maior perfeição que existe! A obra mais pura de Deus entre nós! Iluminando não só a mim, mas a todos que te conhecem e tem o privilégio de conviver com você.”

A postura demonstra uma situação bem comum: há muita desinformação sobre o assunto. Muitas pessoas não compreendem as atitudes e comportamentos de um autista. Aquele que presencia as situações vincula algumas atitudes como birra, mau comportamento ou falta de educação da criança. Mas existe explicação para tal comportamento.

Apesar de existirem graus diferentes para o autismo, do leve ao severo, algumas características são determinantes para caracterizar um autista. São eles: hipersensibilidade (toque, paladar, olfato e audição), problemas na comunicação verbal, atrasos no desenvolvimento cognitivo, fixação em determinados objetos ou assuntos, movimentos repetitivos (tiques), falta de contato olho a olho, alta irritabilidade (resultando em surtos e choros), comorbidades (TOD, TDAH, deficiência intelectual e transtorno bipolar figurando como as principais) e atitudes inadequadas no convívio com outras pessoas.

Baseado nessas características o profissional de saúde pode realizar o diagnóstico. Normalmente, o neurologista é quem tem a formação e o entendimento da situação para afirmar ou não o caso.  Esse diagnóstico se dá pela observação clínica e comportamental e pelos relatos dos pais e de outros adultos que convivem com a criança. Por isso, é de extrema importância o diagnóstico precoce para obter resultados mais eficazes no tratamento.

Diagnóstico cedo ajuda tratamento

Luana e Diego Rita são casados há seis anos. No início do casamento Luana engravidou do primeiro filho, Josué. O garoto, hoje com cinco anos, é autista. O diagnóstico, dado quando ele tinha dois anos e três meses, ocorreu quando Luana voltou a trabalhar e colocou o menino em uma escolinha infantil, levando Josué a conviver com outras crianças e adultos.

Com a ida à escolinha, ficou mais visível aos pais que o filho não interagia muito com os outros. Era mais introvertido e pouco falava. Os coleguinhas de aula já pronunciavam várias palavras enquanto Josué, além de não falar nada, nem ao menos demonstrava qualquer interesse pela fala.

Em uma conversa com a psicopedagoga da escolinha, os pais foram alertados sobre a possibilidade de Josué ser autista. Após algumas consultas, duas neurologistas avaliaram o menino como autista de grau moderado a leve. Ele possuía atraso na fala, nenhum interesse em socialização e se alimentava pouco.

A partir de então, iniciou-se o tratamento. O autismo não tem cura, porém, com o tratamento no tempo adequado, os efeitos do transtorno podem ser minimizados. Josué iniciou terapia ocupacional, musicoterapia, fonoaudióloga e hidroterapia.

Todas as atividades estimularam o menino a se desenvolver. Falar, escovar os dentes, se vestir sozinho, ir ao banheiro e comer, atividades para nós tão comuns, representam para o autista e a família, uma grande conquista. “Minha preocupação era que não o tivéssemos criado da forma correta, que por expor ele a situações normais tivesse errado. Pelo contrário. A psicopedagoga me disse que foi exatamente isso que auxiliou para que ele não tivesse nenhum atraso no desenvolvimento”, comenta.

Hoje Josué é uma criança muito ativa. Gosta de livros, assiste desenhos e compreende nomes dos personagens e músicas, pratica futebol, fala um pouco de inglês, francês e espanhol. Domina a leitura primária, quando o leitor associa a palavra ao objeto, ou seja, ele não sabe exatamente o que está escrito, mas conhece as palavras como se fossem um desenho e as reconhece se associadas à figura correspondente. “Apesar da dificuldade por parte da família em aceitar a condição da criança, hoje todos convivem em perfeita harmonia com ele. Josué é muito amoroso e calmo, gosta de demonstrar carinho com a família abraçando e beijando”, disse Luana.

Desafios para familiares

Savana Machado descobriu o autismo no filho Samuel quase por acaso. Durante uma avaliação comum de desenvolvimento das crianças da escolinha infantil que Samuel frequenta, uma estudante de Medicina percebeu algumas características que entendia serem do autismo.

Com dúvidas em relação ao diagnóstico, Savana levou o filho a uma consulta com a pediatra. Após uma avaliação superficial, identificou que poderia sim haver alguns sinais leves de autismo. Assim, encaminhou Samuel para um neurologista. Com os testes elaborados pelo médico, houve então o diagnóstico de autismo. O menino tinha atraso na fala e dificuldade em interagir com as pessoas, além de movimentos repetitivos que podem ser diferentes para cada paciente. No caso do Samuel, há um movimento como de “pegar” que ele faz com as mãos.

  Mesmo com sinais característicos de autismo, não é muito simples fechar um diagnóstico nesses casos. Samuel, caracterizado com autismo leve, é um menino inteligente e que, apesar de não interagir muito bem com outras pessoas e querer estar sozinho o maior tempo possível, apresenta muita semelhança com a personalidade do pai, o que pode gerar dúvidas quanto ao diagnóstico.

Para Savana Machado, funcionária pública e mãe também de Laura, com 11 anos, não havia dúvidas que seu filho tinha alguma diferença das demais crianças. “Sempre percebi que ele era diferente, que fazia brincadeiras que não eram comuns a crianças da idade dele, não gostava de interagir, gostava de estar sempre sozinho e vivia grudado em mim”, conta.

Savana percebeu também o atraso motor em seu filho e foi encaminhada a um fisioterapeuta. Então, ele começou a caminhar. O atraso na fala também fez com que Savana procurasse um fonoaudiólogo. “Hoje, ele fala, porém não tem uma fala construtiva. Ele sabe o que é, sabe quem ele é, fala muitas palavras, no entanto, não consegue construir uma frase”, conta.

Dificuldade da aceitação e preconceito

Após o diagnóstico, Savana tinha outra missão, talvez a mais difícil. Segundo ela, o maior problema é a não aceitação do marido. Para ele, Samuel tem apenas um comportamento diferente das outras crianças e, é nesse ponto, que Savana se sente mais sozinha.

Outra questão é o preconceito. Samuel não gosta de sair da rotina. Hábitos comuns como ir a um restaurante, por exemplo, causam pânico no menino. E, em situações adversas, os autistas podem ter ataques de irritabilidade, chorar e gritar parecendo falta de educação e de controle dos pais. Por essas situações, Savana evita ir a lugares como parques, shopping ou até mesmo festa dos amiguinhos da escola, exatamente porque as pessoas não têm informação sobre o autismo e não sabem como agir com ele.

Para evitar irritar a criança, submetendo-a ao desconhecido, eles evitam sair juntos. Quando alguém quer visitar um familiar ou amigos, o outro fica com Samuel em casa. Isso deixa a mãe muito chateada. “Tudo tem que ser no tempo dele, no limite dele. Parece birra, mas preciso entender que ele não gosta de muita gente, que se sente seguro em casa. Eu gostaria de levar ele ao parque, ao shopping, tomar um sorvete, mas sei que isso o assusta”, reconhece.





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