Economia

Agricultores temem medidas que inviabilizem a atividade

Incertezas afastam os jovens do meio rural e desestimulam os mais velhos
17 de setembro de 2019 às 11:51
Foto: Banco de Dados

Medo quanto ao futuro. Este é o sentimento que permeia parte dos produtores rurais de Caxias do Sul, que comercializam itens na Feira do Agricultor, diante da possibilidade de ser reeditada a portaria 146, atualmente revogada, que visa proibir a comercialização fracionada de carnes e embutidos, além de outros alimentos elaborados em pequena escala, como chimias e doces.

Segundo o vereador Velocino Uez/PDT, embora o tema, tanto no âmbito estadual como no municipal, esteja em período de silêncio, ele tem ouvido comentários de agricultores que estão com receio de ficarem limitados à venda de hortifrutigranjeiros e produtos de agroindústrias. “Com frequência visito as feiras, e o que muitos me relatam é que a fiscalização está informando que quem não se regularizar ou não se adequar como agroindústria, será proibido de comercializar na feira”, salientou.

Na tentativa de evitar medidas prejudiciais aos produtores e aos consumidores, que gostam de alimentos de feira e com as características originais de produtos coloniais, Uez disse que tem procurado manter contato com os órgãos envolvidos no sentido de encontrar uma solução harmoniosa. Conforme o vereador, o que todos querem é uma normatização que atenda aos requisitos de boas práticas de higiene, já habitual aos usuários da feira.

Para ele, a forma como a portaria 146 está exposta é muito grave e afetaria os pequenos agricultores familiares que dependem de suas produções para sobreviver. “Precisamos desburocratizar os processos que estão se tornando cada vez mais engessados, sem levar em conta as particularidades de cada produto. Deixando bem claro que ninguém deseja abrir mão de princípios básicos de segurança alimentar. Mas, não se pode sobrecarregar demais o pequeno produtor, tratando-o com se fosse uma grande empresa”, criticou.

Se a portaria 146 voltar à vigência, Uez estima que dos aproximadamente 200 agricultores que participam da feira, pelo menos 30%, de imediato, seriam impactados de forma negativa. “Muitos relatam que não valerá a pena participar da feira. Temos orgulho de ser o município que mais produz hortifruti do Brasil. Mas se as pessoas que fazem as leis continuarem a colocar cada vez mais dificuldades para os agricultores, ao invés de lhes dar assessoria, até quando esse título se manterá?”, questionou.

 

Risco de eliminação dos produtos coloniais

 

Para Velocino Uez, se não houver políticas públicas que deem condições de produção a quem vive na agricultura, haverá saída dos jovens do campo. Poderá, em sua ótica, ocorrer aumento do poderio do setor mercadista e consequente repasse aos preços finais ao consumidor. “Caminhando pelas feiras, percebe-se que não está havendo uma renovação dos feirantes. A maioria é pessoas de mais idade. As incertezas quanto ao futuro, aliadas com as dificuldades diárias, afastam o jovem da área rural e desestimulam os mais antigos. É preciso haver por parte do poder público um olhar diferenciado. São pessoas trabalhadoras e honestas, que vendem produtos, sobre os quais não há um só relato de que tenha feito mal a ninguém”, observou.

Segundo Uez, a portaria 146, se reeditada, proibirá a comercialização de produtos sazonais ou aquele que o produtor não têm condições de produzir em grande escala. O que, além de inviabilizar essa atividade econômica, descaracterizará a originalidade da feira. “Muitos desses produtos são sazonais, que excedem o consumido pela família. Então, para complementar na renda e, não jogar este alimento fora, é colocado à venda. Se as ações forem tratadas de forma inflexível, vamos perder toda a nossa cultura. Parece-me que há um grande interesse de grandes empreendimentos em sufocar os pequenos, até que todo o poder esteja concentrado nas mãos de poucos. Quando isso acontecer, o agricultor será refém da oferta do monopólio, assim como o consumidor que não terá mais poder de escolha”, alertou.

 

IMPACTO ECONÔMICO

Valor de produção agrícola chega aos R$ 343,5 bilhões

 

A agricultura brasileira bateu recordes em várias culturas importantes no ano passado, que fizeram com que o valor de produção atingisse o recorde de R$ 343,5 bilhões, alta de 8,3% em relação a 2018. A informação foi divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na publicação Produção Agrícola Municipal (PAM 2018).

Segundo o IBGE, o valor de produção é o mesmo que valor bruto de produção. Eles pegam o chamado “preço de porteira", que é o preço livre de fretes e impostos, e multiplicam pelo total produzido. O resultado é o valor de produção.

De acordo com o gerente de Agricultura do IBGE, engenheiro agrônomo Carlos Alfredo, as principais explicações para o recorde no valor de produção foram as condições climáticas, boas no início do ano para algumas culturas. O clima foi ruim para a segunda safra do milho, mas, em termos de valor, a falta do produto fez com que o preço produto subisse, explicou à Agência Brasil.

O gerente de Agricultura observou que quando se olha o grupo dos grãos, principais produtos na categoria de cereais, leguminosas e oleaginosas, percebe-se que não conseguiu ser batido o recorde de 2017, quando o clima foi excelente para as culturas. “Mesmo assim, a gente teve uma produção de 227,5 milhões de toneladas. É uma queda de 4,7% em relação ao ano anterior, mas, mesmo assim, foi uma produção boa”. Em termos de valor da produção, que atingiu para essa categoria de produtos R$ 198,5 bilhões, foi apurada expansão de 13,6%. “É a questão dos preços, que aumentaram bastante em 2018”. Carlos Alfredo disse que apesar da queda de 16% na produção de milho, ocorreu aumento de 14,1% no valor.

As dez principais culturas (soja, cana-de-açúcar, milho, café, algodão herbáceo, mandioca, laranja, arroz, banana e fumo) representaram quase 85,6% de todo o valor gerado no ano passado. A soja liderou, com participação de 37% no valor da produção, seguida pela cana-de-açúcar (15%) e milho (11%). A soja teve R$ 127,5 bilhões arrecadados, expansão de 13,6%; cana-de-açúcar, R$ 52,2 bilhões, recuo de 3%; e milho, R$ 37,6 bilhões, alta de 14,1%.