Cidades

“Quem veste pele, veste morte”

Soama alerta sobre o outro lado que a indústria da moda não mostra
01 de agosto de 2019 às 10:54
Foto: Divulgação

Para mostrar o lado obscuro, cruel e vermelho que grandes e sofisticadas marcas de moda ignoram ou tentam esconder, a Associação Amigos dos Animais (Soama) está com a campanha “Quem usa pele, veste a morte”. Além de divulgação de conteúdo explicativo e com imagens impactantes em redes sociais, dois outdoors foram instalados em pontos estratégicos de Caxias do Sul. O objetivo é chamar a atenção, chocar, orientar e fazer com que a população pare de consumir produtos desta origem. Principalmente vestuários, que são confeccionados com pele de animais, criados ou retirados da natureza única e exclusivamente para esta finalidade.

Para Natasha Oselame Valenti, diretora de marketing da Soama, as pessoas precisam, pensar, repensar e repassar informações sobre as atrocidades por quais estes animais passam, simplesmente, para atender o egocentrismo humano. “O uso de peles sempre foi considerado glamour, com muitas estrelas do cinema utilizando, principalmente em meados do século 20. Nos anos 1980, houve campanhas maciças contra o uso. Houve muita pressão nos desfiles e, pouco a pouco, foi diminuindo o consumo de pele. Mas como as coisas parecem ser cíclicas, este problema voltou com força”, lamentou.

Ela ressalta que estes animais, geralmente, são criados em ambientes inapropriados, o que fere a essência do mesmo, como gaiolas minúsculas em ambiente escuro. Também destaca as inúmeras formas de abate, muitas delas cruéis e dolorosas. “Imagine passar a vida inteira assim? Sem poder correr, cavar ou exercer aquilo que é da sua natureza, muitos surtam. As pessoas precisam se inteirar sobre todo o processo. Garanto que, no caso das peles, elas vão se assustar. Há muita dor e sangue. Quando se trata de pele, a morte é muito dolorosa, pois a pele tem que ficar intacta. Alguns animais são esfolados vivos”, alertou.

A campanha que tem como destaque uma modelo vestindo casacos de pele, mas com grandes manchas de sangue, foi toda estruturada de forma gratuita, em conjunto com sócios que apoiam a Soama, que só contribuiu com R$ 250. Os outdoors estão colocados na Rua Pinheiro Machado, no Bairro São Pelegrino, e na Avenida Rubem Bento Alves, próximo ao número 4.395. Locais em que permanecerão até que o espaço seja comercializado e, assim, passando para outro vago. “Se conseguirmos conscientizar uma pessoa a olhar um casaco de pele e ver sangue ao invés de um belo produto, já terá valido a pena. Talvez, assim, consigamos enfraquecer, até acabar, com esta indústria ceifadora de vidas”.

 

Ego alimentado por morte

Vegana há mais de 20 anos, Natasha Oselame Valenti, diz que, mesmo discordando, entende o abate de animais para o consumo de carne. Afirma que as pessoas não são iguais, e que também são livres para consumirem alimentos de origem animal, ou o que melhor suprir a sua necessidade de sobrevivência.

O que não entende, nem aceita, é a produção ou retirada de animais da natureza e posterior abate, única e exclusivamente para satisfazer o ego humano. “A maior parte da criação de chinchilas e coelhos tem como única finalidade a produção de peles. A carcaça é jogada no lixo. A humanidade mata por ano trilhões de animais das mais variadas formas, pelos mais variados motivos. E algumas mortes são injustificáveis. Para se fazer um casaco de chinchila, é necessário mais de 100 animais. Quem pode dizer que isso é justificável?”

Além dos consumidores, Natasha também critica criadores, fábricas e lojas do segmento, localizadas na Serra Gaúcha. Para ela, é inacreditável que, principalmente, jovens, com todo o acesso de conteúdo disponível, ainda considerem o uso de pele de animal um sinônimo de status social. “É preciso ter a consciência de que vestir pele não é glamour. Nos primórdios da humanidade, na época das cavernas, era necessidade. Mas hoje, com toda tecnologia disponível, é muita maldade. Mesmo assim, muitas pessoas compram sem saber a história suja, triste e dolorosa que se tem por trás daquela peça bem acabada, limpa e cara. Além dos animais peludinhos, a indústria trabalha muito forte no glamour de calçados e bolsas feitas com peles exóticas. Todos sofrem”, frisou. Mais informações em soama.org.br.

 

Quanto precisa?

Para fazer um casaco de peles de comprimento médio matam-se, em média, 125 arminhos, 100 chinchilas, 70 martas-zibelinas, 30 coelhos, 27 guaxinins, 11 raposas douradas, 11 linces e nove castores.