Cidades

Cantores lamentam a suspensão das atividades do Coro da UCS

Representante da instituição de educação alega que interrupção é temporária em função de reformulações
30 de maio de 2019 às 12:46
Foto: Saulo Campagnolo, Divulgação

Criado com o propósito de divulgar e fomentar, na comunidade, o canto coral, o Coro da Universidade de Caxias do Sul (UCS), que completou 50 anos em 2018, teve as suas atividades encerradas após apresentações na Festa da Uva 2019. “A impressão é de que a decisão já estava tomada, apenas esperando passar a Festa da Uva. Como sempre fazíamos, vínhamos ensaiando duas vezes por semana. No início do semestre, quando começávamos a planejar o cronograma para este ano, a Universidade demitiu as únicas pessoas que eram remuneradas: a maestrina Anita Bergmann Campagnolo e o preparador vocal Ricardo Barpp. Sem saber como continuaríamos, fomos conversar com o coordenador do curso de música, que nos falou que também tinha sido pego de surpresa. A única informação que tinha era de que o Coro passaria a fazer parte da graduação, tipo um laboratório, mas que não tinha ideia de como seria desenvolvido”, relata Maria Inez Lopes, que cantava a um ano no Coro.

Conforme Maria, os 20 cantores, dentre eles estudantes e pessoas das mais variadas profissões, ficaram decepcionados com a desconsideração. “Tínhamos cantores de 18 a mais de 60 anos, alguns com muito tempo de casa. Dedicávamos parte das nossas vidas para fazer essa atividade que exercíamos por amor, de forma voluntária. Tínhamos colegas que vinham de Farroupilha, duas vezes por semana, só para o ensaio. Levávamos o nome da UCS a vários eventos sociais, culturais e religiosos”, destacou.

Embora imagine que a suspensão das atividades do Coro esteja ligada a contenção de gastos, Maria salienta que somente a maestrina e o preparador de vocal eram remunerados. “Não tivemos aviso prévio, só pensaram no dinheiro. O decreto foi dado, sem termos a chance de propor alternativas, que seriam encontradas. Éramos um grupo animado, sempre procurando evoluir e, de repente, tudo nos foi tirado. Acreditamos que quem mais sairá perdendo é a cultura de Caxias, a comunidade que não terá mais o Coro da UCS, que era de qualidade. É um legado que está sendo quebrado. Pode ser que volte com outro formato, mas a forma como as ações recentes foram conduzidas indicam o contrário”, lamentou.

Instituição assegura que atividade será retomada

O coordenador do curso de música, Vitor Hugo Manzke, sustenta que o Coro não encerrou as atividades. O que está acontecendo, segundo ele, é uma reestruturação, com a coordenação deixando de ser do setor de Cultura da UCS, e passando, desde março, a ser executada pelo curso de Licenciatura em Música. “Todo o setor cultural está sendo reestruturado. Mas, realmente, as atividades artísticas e os ensaios não estão acontecendo. No entanto, os trabalhos administrativos de reestruturação e de planejamento de novos projetos estão sendo executados. Estamos gestando um novo formato de trabalho com o Coro. Ele passará a ser uma espécie de laboratório de licenciatura em música, com o apoio dos nossos professores”, explicou.

Sobre como será o novo formato e quando o Coro voltará à ativa, Manzke optou por não divulgar nesse momento alegando ainda estar em fase de planejamento. Disse existirem algumas bases para as ações. “Estamos montando algo que não contemple apenas o coro numa faixa etária, mas em movimentos, que é o que acontece no Brasil e no mundo. Se pensa desde o coro infantil, adulto e sênior, que dialogarão com a proposta da licenciatura em música”, explicou.

O coordenador frisou que, quando recebeu o Coro em março, ainda não tinha agenda para este ano. Assegurou que tão logo as atividades artísticas sejam retomadas, todos os eventos antes realizados, além de novas demandas, serão atendidos. Sobre a queixa dos cantores de que não foram avisados do processo de reformulação, Manzke garantiu ter realizado duas reuniões, quando a situação foi explicada. “Informamos que tão logo a parte organizacional esteja definida, eles serão os primeiros a serem contatados. Asseguramos que não vamos rasgar uma história de 50 anos, e que todos os cantores que antes participavam terão as portas abertas, assim como a comunidade”, ressaltou.

Íntegra do manifesto dos cantores

À Reitoria da Universidade de Caxias do Sul, Setor Cultural da UCS e comunidade em geral

Em respeito e resposta ao nosso público, o objetivo deste comunicado é expressar o desapontamento com a Instituição Universidade de Caxias do Sul referente às decisões pertinentes ao Coro da UCS que acarretaram na suspensão temporária das suas atividades neste início de 2019. Em 2018, o grupo comemorou seus 50 anos de história, sendo uma marca como instituição cultural da cidade de Caxias do Sul. Nestes 50 anos vinha ocupando um relevante espaço no ambiente musical, reconhecido pela comunidade por seu estimável valor artístico e continuamente colaborando com o fomento da cultura em nossa cidade e região. Acreditamos, entretanto, que tal fato não tenha sido levado em consideração quando se optou por, unilateralmente, afastar de suas funções a regente e o preparador vocal do grupo, além de desvincular esse grupo do setor de Desenvolvimento Cultural da UCS.

O descontentamento maior se dá, no entanto, em relação ao grupo de cantores que ensaiava duas vezes por semana, além de participarem de concertos e outras atividades. Grupo que se dispunha a estar presente, eventualmente deixando outros compromissos de lado, para atender à demanda que se fazia necessária para o bom funcionamento e desenvolvimento artístico do grupo. Este grupo de voluntários se via como parte de uma instituição e, através dela, acreditavam contribuir para o benefício cultural e desenvolvimento da sociedade.

Surpreendentemente, porém, o grupo é destituído de sua atividade sem um mínimo planejamento concreto sobre como se daria a continuidade de sua existência, deixando seus participantes na expectativa de entender as motivações de tais decisões. A percepção de que fomos tratados com descaso e certa indiferença pela UCS se acentua quando o grupo recebe como retorno uma agenda impalpável, que não oferece perspectiva. Solicitada pelo grupo, a presença do coordenador do Departamento de Música da UCS comprova que não houve planejamento quanto à decisão, visto que o plano sobre o que se fazer a respeito do grupo é incondizente com a demanda atual de horários dos servidores, entre outras questões, conforme colocou o professor Vitor Hugo Manzke, fazendo com que decisões se prolonguem, no mínimo, até o segundo semestre, ou mais, visto que estamos em maio e nenhum retorno foi recebido.

Atentos sobre o andamento do grupo e sensibilizados com o incerto futuro de um bem cultural tão significativo para a comunidade caxiense, manifestamos nosso sentimento de perda. Perde a música, a cidade, os seus participantes, a academia e a história. Respeitosamente, Cantores do Coro da UCS”.